O pescador de pérolas

 O Pescador de Pérolas


Se queres viajar, ó irmão dos Árabes, vem comigo. Vou partir, se Allah quiser, para um recanto longínquo, situado para além dos mares - vou em busca de aventuras no País das Pérolas.


Ao cabo de duas semanas, a viagem torna-se monótona. Não há piratas que nos ameace a vida, nem ondas tempestuosas que nos possam assustar.

De vez em quando um marujo, apontando para uma aldeia que se avista ao longe, na praia, esquecida entre palmeiras desconsoladas, grita-nos um nome arrevesado:

    - Rostáq!

    - Prazer em conhecer-te, ó aldeiazinha ignota! Agrada-me a tua tranquilidade, comove-me a tua resignação muculmânica! Estás, bem se vê, como uma prisioneira, na praia, entre o mar e o deserto. Assim quis Allah (exaltado seja o Altíssimo!)

    - Sohan!

Eis ai outro lugarejo diante do qual não nos é possível ancorar. Sohan! Que é Sohan, afinal? Um grupo de casinhas brancas envolvidas por um oásis verdejante. É essa impressão de paz e felicidade que nos deixa a pequenina Sohan, dormindo descuidada à sombra das tamareiras.

    - Há quatro anos estive em Sohan - resmungou, a nosso lado, um comerciante inglês. - Lá fui em busca de pérolas. É horrível! Em cem habitantes há nada menos de oitenta cegos e surdos! Que desolação! Que miséria! É o país dos mutilados.

    - E quem os cegou?

    - O mar. Os pescadores de pérolas, em geral, ficam cegos.

    - E quem os ensurdeceu?

    - O mar. No fim de quatro ou cinco meses de trabalho, em busca de pérolas, o mergulhador fica surdo! A pressão da água arrebenta-lhe os tímpanos.

Interrogo um velho marujo, indolente e sujo, que fuma descuidado, olhando o horizonte:

    - Como se chama aquela nova aldeia da qual já se avistam as casas pardacentas?

    - Burca! É a terra do santo Sidi-Lamis, o milagroso! Que Allah o tenha em sua glória!

Mr. Turner, o inglês, comprador de pérolas, sorri malicioso ao ouvir falar no santo de Burca.

Pergunto-lhe interessado:

    - Existe, Mr. Turner, alguma lenda curiosa em torno desse santo? O venerando Sidi-Lamis faz milagres para consolar os fiéis?

O meu interpelado respondeu no idioma de sua terra.

    - I would rather be silent. We are among mussulmans. Respect and Carefulness is the shield of those who feel insecure! (É melhor que eu me cale. Estamos entre muçulmanos. Respeito e prudência é escudo dos que se sentem inseguros!)

Passa, nesse momento, por junto de nós, o comandante do navio.

    - Capitão, a que horas chegará o nosso barco a Muscat?

O comandante cruza os braços sobre o peito largo e responde vagarosamente, um vozeirão soturno, como um remador já fatigado:

    - Se Allah quiser, chegaremos a Muscat amanhã, depois da segunda prece. Salã!

    - Salã!, capitão! Salã! A notícia é boa! - observa Mr. Turner, batendo lentamente com o seu pesado cachimbo na palma da mão. - É possível, portanto, que amanhã de tarde possamos visitar o generoso Sidi Tussein Al Tebuc, governador de Muscat.

    - Sim, se Allah quiser!

    - Bem sei, comandante, bem sei! Só podemos realizar os nossos planos e levar a termo os nossos projetos pela vontade do Onipotente!

O comandante, sem dar atenção às explicações do negociante londrino, afastou-se apressado. Não se percebia na curva branca do horizonte nem mesmo a mancha característica de uma aldeia de pescadores. Sentia-se sobre o mar o calor que o deserto imenso irradiava.

    - Mister Turner - acudiu um dos passageiros - é verdade que existe uma história muito curiosa em que figuram, como personagens principais, o governador Hussein e um pescador de pérolas? Poderia contar-nos esse episódio?

    - Pois não - respondeu Mister Turner - A história a que você se refere é realmente interessante, e vou contá-la.

Reparando, porém, nos olhares desconfiados dos Árabes, ajuntou, por precaução:

    - Vou contá-la... se Allah quiser!

E assim começou:

    - A filha mais velha de Sidi Hussein Al-Tebuc, governador de Muscat, durante um passeio de barco pelo porto, em consequência de uma manobra mal feita, foi atirada ao mar.

Teria a moça perecido, arrastada pela correnteza, se não tivesse sido em tempo socorrida por Eliã Mucair, um dos mais intrépidos pescadores de pérolas.

O governador Mussein, informado do caso, mandou chamar ao palácio o salvador da filha. Recebeu-o em audiência solene.

    - Pescador! - exclamou o rico Mussein. - Dezenas de pessoas testemunharam a tua bravura. Desejo vivamente recompensar-te pelo ato de heroísmo que praticaste salvando minha filha.

    - Sidi - respondeu o moço, em tom respeitoso. - Não me julgo com direito a recompensa alguma. Não passo, como bem sabeis, de um humilde pescador de pérolas e, ao retirar a vossa encantadora filha do mar, nada mais fiz do que desempenhar-me de um dever de ofício. Sou, repito, um pescador de pérolas!

    - Mac Allah! - exclamou o emir ao ouvir a inesperada resposta de Eliã. - Já vejo, pelas tuas palavras, que além de valente, és um homem inteligente e de espírito. A tua resposta exprime um galanteio muito original.

E depois de pequena pausa, acrescentou: 

    - No exercício de tua profissão deves receber, como fazem os teus companheiros, uma gratificação, todas as vezes que retiras pérolas do fundo do mar. Pois bem: vou pagar-te cem libras pela última "pérola" que encontraste!

    - Emir poderoso! - retorquiu o jovem - os pescadores de pérolas são surdos. O mar vinga-se cruelmente daqueles que procuram arrancar-lhes os tesouros, tornando-os incapazes de ouvir o fragor das ondas. Sou vítima desse defeito peculiar aos homens de minha profissão, e, por isso, não pude perceber bem o sentido de vossas últimas palavras.

O generoso prefeito, elevando o tom da voz, bradou:

    - Vais receber duzentas libras! Ouviste?

    - Ainda não ouvi bem - tornou, penalizado o pescador.

As pessoas que se achavam presentes acompanhavam com vivo interesse o desfecho daquele caso.

O velho Hussein, formando então, com as conchas da mão, junto à boca, uma espécie de tubo acústico, gritou com toda a força:

    - Vais receber, ó jovem! Quatrocentas libras!

    - Agora sim - precipitou-se o pescador a responder - as vossas generosas palavras foram ouvidas por mim.

Intrigado com aquela estranha surdez, o emir de Muscat observou em tom faceto:

    - Noto certa singularidade em tua atitude, ó pescador! Há pouco, quando aqui chegaste, ouvias as primeiras frases mesmo quando eu as pronunciasse em tom natural. Mas, ao se tratar do pagamento prometido, o som só logrou chegar aos teus ouvidos quando quadrupliquei a quantia, elevando-a a quatrocentas libras! Não deixa de me causar estranheza a espécie de tua surdez.

Respondeu Eliã, o pescador de pérolas:

    - A explicação deste fato pode ser dada em poucas palavras e creio que a justificarei facilmente. A pérola mais preciosa que consegui achar há tempos, foi vendida por trezentas libras a um traficante de Smyrna. Seria ofender-vos, ó emir!, se eu consentisse em receber, pela "pérola" de vossa família, um pagamento menor do que aquele que me fora dado por uma pérola qualquer! Aguardei, portanto, que, pela vossa generosidade, o preço por vós arbitrado chegasse a uma quantia digna do vosso renome e do vosso prestígio.


    - Termina aí a história, Mr. Turner? - perguntamos.

O inglês, reacendendo tranquilo o seu cachimbo, concluiu sorridente:

    - Termina ou ... como diriam ... termina pela vontade de Allah!


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Conto extraído do livro: Malba Tahan - Maktub (estava escrito). Contos orientais traduzidos diretamente do original árabe. 5ª edição. Tradução: Professor Breno Alencar Bianco. 1.951, Conquista. Rio de Janeiro.

Imagens produzidas com IA.

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